Por que uma operação com toda a documentação correta ainda sofre atraso? 

Na maior parte dos casos, o problema não está no processo do importador, mas nos gargalos estruturais da cadeia logística: portos operando no limite da capacidade, cronogramas de navio alterados sem aviso prévio e cobranças de demurrage que nem sempre são devidas. Em 2026, esses gargalos deixaram de ser exceção e passaram a fazer parte do planejamento de qualquer operação de comércio exterior. Este artigo mapeia os principais pontos de risco e as estratégias que reduzem o impacto deles no custo e no prazo da sua importação.

O que conta como gargalo logístico na importação

Gargalo logístico é qualquer ponto da cadeia que reduz a previsibilidade da chegada da carga ou gera custo não planejado: congestionamento portuário, falta de espaço em terminal, cobrança indevida de sobrestadia, exigência documental que trava o desembaraço. Ele é diferente de um erro de compliance, mas os dois costumam se somar: uma classificação fiscal incorreta, por exemplo, transforma um atraso portuário comum em uma retenção aduaneira longa.

Os principais gargalos logísticos na importação em 2026

Congestionamento e atraso nos principais portos brasileiros

O boletim DetentionZero, da ElloX Digital Logistics, monitora 12 terminais de contêineres no país. Em junho de 2026, em média 41% dos navios foram afetados em cada porto, com atrasos de 4,2 dias. No Porto de Santos, o principal do país, 63% dos navios tiveram os prazos de embarque alterados, com atraso médio de 6 dias; em Paranaguá, 49% das embarcações foram afetadas com atraso médio de 8 dias; em Manaus, 86% dos navios sofreram alterações, embora a demora média tenha sido de apenas 1 dia. Segundo o chefe de produtos da ElloX, mudanças na data do navio desorganizam toda a cadeia logística de uma operação, reduzem a previsibilidade de entrega, podem exigir remarcação de caminhões e aumentam os gastos com armazenagem.

Terminais operando acima do limite técnico de eficiência

O terminal BTP, no Porto de Santos, opera a cerca de 95% da capacidade e chegou a recusar navios que não conseguiram atracar, nem nos terminais vizinhos Santos Brasil e DP World Santos. Para efeito de comparação, a OCDE sugere um limite de ocupação de até 70% no pátio e 65% no berço para preservar a eficiência operacional, mas o Porto de Santos opera no limite de sua capacidade instalada desde 2019. Isso significa que qualquer imprevisto (uma manutenção, um navio atrasado, um pico sazonal de demanda) já não encontra folga no sistema para absorver o impacto.

Custo portuário em disparada (THC)

A pressão sobre a capacidade tem efeito direto no bolso do importador. Segundo estimativas da Neowise Consultoria, a Terminal Handling Charge (THC) em Santos saiu de uma faixa entre US$ 70 e US$ 100 por TEU em 2019 para cerca de US$ 500 em 2026, um salto de quase cinco vezes. No mesmo período, as importações no porto cresceram 7,3% nos cinco primeiros meses do ano em comparação ao mesmo período do ano anterior, o que indica que a demanda segue pressionando uma estrutura que já opera no limite.

Cobrança indevida de demurrage e detention

Nem todo atraso deveria virar custo para quem importa. O Acórdão 521/25 da Agência Nacional de Transportes Aquaviários (Antaq) estabelece que, quando o atraso decorre de falha na logística do armador ou do terminal, a cobrança de sobrestadia ao importador ou exportador perde legitimidade; a falta de janela no terminal também não pode gerar cobrança de detention. Na prática, muitas empresas pagam essas cobranças sem contestar porque não rastreiam a causa real do atraso, e deixam de recuperar um custo que juridicamente não lhes pertence.

Gargalos documentais na transição para a DUIMP

O Novo Processo de Importação (NPI) segue substituindo gradualmente o sistema Siscomex LI/DI pela Declaração Única de Importação (DUIMP), centralizada no Portal Único de Comércio Exterior. Em julho de 2026, a Receita Federal e o Comitê Gestor do IBS publicaram o cronograma dos documentos fiscais eletrônicos ligados à Reforma Tributária, incluindo a DUIMP entre os documentos com obrigatoriedade a partir de janeiro de 2027. O ganho prometido é relevante: a expectativa é reduzir o prazo médio de desembaraço em cerca de 40%, de 17 para 10 dias, com a implementação completa do novo processo. Mas, enquanto a transição não se completa, empresas que não ajustam seus dados aos novos atributos do NPI enfrentam exigências e retenções extras exatamente no período de maior instabilidade do sistema.

Infraestrutura logística nacional deficitária

O gargalo não termina no portão do porto. Os custos logísticos no Brasil saltaram de 10,4% do PIB em 2014 para 15,5% em 2025, e a Confederação Nacional do Transporte lançou o Plano CNT de Transporte e Logística 2026, reunindo 2.837 projetos prioritários e estimando em R$ 2,03 trilhões o investimento necessário para superar os principais gargalos da infraestrutura de transporte do país. Para o importador, isso se traduz em rodovias e ferrovias que encarecem e alongam o trecho entre o porto e o destino final da carga, mesmo depois do desembaraço concluído.

Estratégias para blindar sua operação contra gargalos logísticos

Planejamento de booking com margem de segurança

Reservar espaço no navio “em cima da hora” deixa a operação exposta a qualquer alteração de cronograma. Antecipar o booking e negociar prazos com margem reduz a chance de a carga ficar refém de um navio que sofreu mudança de rota ou atraso na origem.

Diversificação de portos e rotas de entrada

Os dados de congestionamento variam muito entre terminais: um porto com 63% dos navios atrasados e outro com 14%, no mesmo mês. Avaliar rotas alternativas por perfil de produto e NCM, em vez de repetir sempre o mesmo porto por hábito, é uma forma direta de reduzir exposição a gargalos concentrados.

Auditoria de cobranças de demurrage e detention

Antes de pagar uma fatura de sobrestadia, vale checar se o atraso teve origem na sua operação ou na do armador e do terminal. Com o entendimento da Antaq, cobranças originadas em falha operacional do terminal ou do armador podem ser contestadas, e isso exige rastrear a causa do atraso com registro documental.

Antecipação documental e compliance de classificação fiscal

Classificação de NCM correta, Habilitação Radar em dia e adequação antecipada aos atributos exigidos pela DUIMP evitam que a burocracia se some ao gargalo físico do porto. Em um sistema em transição, o erro documental custa mais caro do que em um sistema estável.

Full Comex Outsourcing como camada de previsibilidade

Gerir cada um desses pontos isoladamente, dentro de uma operação que já lida com produção, vendas e financeiro, é onde a maioria das empresas perde o controle. Um modelo de Full Comex Outsourcing centraliza a escolha de porto e rota, a simulação de custo, a auditoria documental e o acompanhamento do desembaraço em uma única frente, com alguém acompanhando ativamente a operação em vez de apenas processá-la.

Os gargalos logísticos de 2026 são estruturais e não devem se resolver no curto prazo. Reduzir o impacto deles na sua importação não depende de sorte, depende de inteligência operacional aplicada antes que o problema apareça: escolha de rota, antecipação documental e auditoria de cobrança. Se sua empresa quer mapear os pontos de exposição da operação atual e construir um plano de mitigação, fale com a NR Internacional e agende uma conversa de diagnóstico.